Leão XIV no Uruguai abriu sua primeira visita à América do Sul como papa com um discurso centrado na dignidade humana, na proteção da vida e na responsabilidade compartilhada pelo futuro. Diante de autoridades, representantes da sociedade civil e diplomatas, em 6 de novembro, na Praça da Independência, em Montevidéu, o pontífice relacionou a defesa de quem ainda não nasceu ao apoio concreto às mães, aos pais e às famílias.
O pronunciamento foi o primeiro grande discurso da viagem apostólica que também passará pela Argentina e pelo Peru. Em vez de apresentar princípios isolados, o papa partiu da história uruguaia e das figuras do monumento a José Gervasio Artigas para falar de democracia, cuidado com os vulneráveis, educação, trabalho, tecnologia, saúde, liberdade religiosa e cooperação entre os países da região.
Proteção da vida e apoio às famílias são inseparáveis
Ao observar no monumento a imagem de uma mulher com um bebê nos braços, Leão XIV chamou a atenção para a vida em seu início e para a criança que ainda cresce no ventre materno. “Quem ainda não nasceu já pertence à família humana e ao futuro do seu povo”, afirmou.
O papa acrescentou que a dependência completa do bebê em relação à mãe não reduz sua dignidade nem a proteção que lhe é devida. Ao mesmo tempo, deixou claro que acolher uma nova vida não pode ser tratado apenas como uma responsabilidade individual da mulher. Para ele, é necessário que o pai participe, que a família ofereça suporte e que a sociedade garanta condições para que os pais possam criar e cuidar dos filhos.
Essa formulação reúne duas dimensões frequentemente separadas no debate público: a defesa da vida antes do nascimento e as políticas de apoio a quem acolhe uma criança. Na visão apresentada pelo pontífice, proteger o nascituro exige também enfrentar as dificuldades materiais, sociais e afetivas que pesam sobre as famílias.
A dignidade humana não depende da produtividade
Outra imagem do monumento — uma idosa que avança com dificuldade, amparada por outras pessoas — serviu de ponto de partida para um princípio central do discurso: o valor de alguém não pode ser medido por sua força, autonomia ou capacidade de produzir.
Leão XIV aplicou esse princípio às pessoas doentes, com deficiência, em situação de pobreza, sem trabalho ou que perderam autonomia. Segundo o papa, a fragilidade não diminui direitos; ao contrário, torna mais urgente a assistência, o acompanhamento e o acesso aos cuidados necessários. Ele pediu que cada pessoa seja acompanhada com dignidade até o fim natural da vida.
O pontífice também defendeu que os cuidados de saúde estejam ao alcance de todos, independentemente dos recursos econômicos. A Igreja, afirmou, deseja colaborar por meio das dioceses, comunidades e iniciativas de serviço, oferecendo ajuda concreta e a esperança cristã a quem atravessa situações de sofrimento.
Trabalho e inteligência artificial devem servir à pessoa
O discurso abordou ainda os efeitos das transformações tecnológicas sobre o emprego. Leão XIV recordou o ensinamento de São João Paulo II segundo o qual o trabalho existe para a pessoa, e não a pessoa para o trabalho.
Diante do avanço rápido da inteligência artificial, o papa defendeu que a tecnologia amplie as capacidades humanas, facilite tarefas e crie oportunidades. O critério, porém, deve ser impedir que o trabalhador seja reduzido a uma peça descartável do processo produtivo. A observação dá continuidade ao apelo recente de Leão XIV para que economia e política permaneçam a serviço do bem comum.
Estado laico não significa religião confinada à vida privada
Ao falar da diversidade de crenças no Uruguai, Leão XIV afirmou que a laicidade do Estado deve assegurar a convivência livre e respeitosa entre crentes e não crentes. Para o papa, a neutralidade estatal não exige que a fé seja limitada ao espaço privado.
O pontífice recorreu à declaração conciliar Dignitatis humanae para defender que ninguém seja obrigado a agir contra a própria consciência nem impedido de viver conforme ela, dentro dos limites devidos. Pessoas e comunidades religiosas, disse, podem contribuir para o bem comum sem desrespeitar a autonomia das instituições civis.
Democracia, ambiente e diálogo regional
Leão XIV elogiou os quarenta anos ininterruptos de democracia completados pelo Uruguai em 2025 e afirmou que a autoridade pública encontra sua razão de ser no serviço ao bem comum. Também reconheceu a transformação da matriz elétrica uruguaia, hoje baseada quase totalmente em fontes renováveis, e pediu decisões de longo prazo sobre terra, água, energia e produção.
Em relação à América Latina, o papa destacou que Montevidéu abriga a Secretaria do Mercosul e encorajou a negociação, o respeito ao direito e a busca paciente de acordos. Em um contexto internacional marcado por tensões, apresentou a cooperação regional como um serviço que o Uruguai pode continuar oferecendo aos países vizinhos.
Uma visita que apenas começou
O discurso marcou o início da etapa uruguaia da viagem. Leão XIV permanecerá no país até 8 de novembro, com compromissos em Montevidéu, Paysandú e Florida, antes de seguir para a Argentina e o Peru. O calendário de celebrações do papa reúne o contexto mais amplo dos compromissos previstos para novembro.
Ao concluir, o pontífice afirmou que veio como sucessor de Pedro e pastor para encontrar a Igreja local e aproximar-se do povo uruguaio. Sua primeira mensagem no país uniu defesa da vida, justiça social, responsabilidade familiar e participação pública da fé como partes de uma mesma visão da dignidade humana.
Fontes
Discurso oficial de Leão XIV às autoridades, à sociedade civil e ao corpo diplomático — Santa Sé.
Texto publicado pela Conferência Episcopal do Uruguai.
Cobertura da ACI Digital sobre o primeiro discurso no Uruguai.
Imagem: Palácio Salvo, junto à Praça da Independência, em Montevidéu. Foto de Guillermo Vuljevas/Unsplash.
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