Papa Leão XIV Proibiu a Oração em Línguas? Leia o que ele Disse
Cidade do Vaticano – Um boato que circula nas redes sociais afirma que o Papa Leão XIVteria proibido a “oração em línguas”, uma prática comum em grupos e comunidades carismáticas. A polêmica surgiu após uma homilia do pontífice no dia 1º de setembro, durante uma missa para a ordem dos agostinianos.
No entanto, a informação é falsa. O Papa, em nenhum momento, se referiu à prática carismática contemporânea. Pelo contrário, sua fala tratava de um contexto teológico e histórico completamente diferente, relacionado ao evento de Pentecostes.
O Que o Papa Realmente Disse?
A confusão começou porque o Papa citou o termo “glossolalia” (dom de línguas). Contudo, a leitura atenta de sua homilia revela que ele se referia ao fenômeno milagroso de Pentecostes, quando os apóstolos foram compreendidos por pessoas de várias nações.
Citando Santo Agostinho, o Papa Leão XIV explicou por que o sinal extraordinário de falar todas as línguas não se repete da mesma forma hoje. O próprio pontífice disse:
Meditando sobre Pentecostes, nosso Pai Santo Agostinho, respondendo à provocativa pergunta daqueles que perguntavam por que, hoje, o sinal extraordinário da “glossolalia” não se repete, como outrora em Jerusalém, oferece uma reflexão que creio ser muito útil para vocês no mandato que estão prestes a cumprir. Agostinho diz: “No princípio, cada crente […] falava em todas as línguas […]. Agora, o corpo dos fiéis fala em todas as línguas. Portanto, também agora, todas as línguas são nossas, visto que somos membros do corpo que fala” (Sermão 269, 1). Caríssimos, aqui, juntos, vocês são membros do Corpo de Cristo, que fala todas as línguas. Se não todas as do mundo, certamente todas aquelas que Deus sabe que são necessárias para a realização do bem que, em sua sabedoria providente, ele lhes confia. Portanto, vivam estes dias num esforço sincero de comunicação e compreensão, e façam isso como uma resposta generosa ao grande e único dom de luz e graça que o Pai Celestial lhes dá ao chamá-los aqui, vocês dentre todas as pessoas, para o bem de todos.
Com essa citação, o Papa Leão XIV usou uma metáfora para explicar que a Igreja, como um corpo único, “fala todas as línguas” ao levar o Evangelho a todas as nações. Ele não estava, portanto, proibindo ou sequer julgando a oração em línguas praticada nos grupos de oração.
A Origem e a Disseminação do Boato
Segundo líderes católicos que analisaram o caso, o boato foi disseminado por grupos com interesses distintos. De um lado, algumas páginas ligadas à Teologia da Libertação teriam usado a fala do Papa para criticar movimentos carismáticos. De outro, grupos do tradicionalismo mais radical também teriam propagado a desinformação.
O padre José Eduardo, citado como referência no assunto, esclareceu a questão: “Leão XIV não aboliu o dom de línguas. Isso é invenção de quem não leu a fonte ou está mentindo”. Ele reforça que seria teologicamente impossível um Papa “abolir” um carisma, que é considerado um dom do Espírito Santo.
Dom de Línguas: Entenda a Diferença Entre Glossolalia e Xenoglossia
O “dom de línguas” é um dos carismas do Espírito Santo mais conhecidos e, ao mesmo tempo, um dos que mais geram dúvidas e debates. Frequentemente associado aos movimentos de renovação carismática, o termo, na verdade, pode se referir a dois fenômenos distintos descritos na Bíblia: a xenoglossia e a glossolalia.
Compreender a diferença entre eles é fundamental para interpretar corretamente tanto os textos bíblicos quanto as diversas manifestações de fé na Igreja hoje.
Xenoglossia: O Milagre de Pentecostes
A xenoglossia (do grego xenos, “estrangeiro”, e glossa, “língua”) é o milagre de falar em um idioma existente, mas que o orador nunca aprendeu.
Onde aparece na Bíblia? O exemplo mais claro e famoso está em Atos dos Apóstolos, capítulo 2, durante a vinda do Espírito Santo em Pentecostes. Os apóstolos, cheios do Espírito, começaram a pregar. Havia em Jerusalém pessoas de diversas nações, e o milagre foi que “cada um os ouvia falar em sua própria língua”.
Qual o propósito? O objetivo da xenoglossia em Pentecostes foi claro: a evangelização. Foi um sinal divino que quebrou as barreiras linguísticas para que a mensagem do Evangelho fosse compreendida por todos os povos ali presentes, revertendo a confusão da Torre de Babel.
É comum hoje? Este é um fenômeno considerado extraordinário e raro na história da Igreja, diretamente ligado a um momento fundacional.
Glossolalia: A Oração da Alma
A glossolalia (do grego glossa, “língua”, e lalein, “falar”) é o ato de orar em sons ou sílabas que não correspondem a nenhum idioma conhecido. Não é uma linguagem para comunicação humana, mas sim uma forma de oração pessoal e íntima com Deus.
Onde aparece na Bíblia? São Paulo trata extensamente sobre este dom em sua Primeira Carta aos Coríntios, capítulos 12 e 14. Ele o descreve como uma oração em que “o espírito ora, mas a mente fica infrutífera” (1 Cor 14,14). Ou seja, é uma prece que não passa pelo filtro da razão.
Qual o propósito? Segundo São Paulo, a glossolalia serve principalmente para a edificação pessoal (“Quem fala em línguas edifica-se a si mesmo” – 1 Cor 14,4). É uma forma de louvor em que o fiel se entrega a Deus para além das palavras e dos conceitos. Em um contexto comunitário, Paulo orienta que a glossolalia só tem valor se houver alguém com o “dom da interpretação” para traduzir a mensagem para a assembleia.
É comum hoje? Sim. Esta é a manifestação mais comum nos dias de hoje, especialmente em movimentos de renovação carismática, grupos de oração e comunidades que valorizam a experiência dos dons do Espírito Santo.
Tabela Comparativa: Xenoglossia vs. Glossolalia
Característica
Xenoglossia (Pentecostes)
Glossolalia (Coríntios)
Natureza
Falar um idioma estrangeiro real e desconhecido pelo orador.
Falar em sons e sílabas que não formam um idioma conhecido.
Compreensão
É compreendido por nativos daquele idioma.
Não é compreensível racionalmente, a não ser pelo dom da interpretação.
Propósito Principal
Evangelização e proclamação da mensagem a outros povos.
Edificação pessoal, louvor e oração íntima com Deus.
Referência Bíblica
Atos dos Apóstolos 2
1ª Coríntios 12 e 14
Em resumo, enquanto a xenoglossia é um milagre voltado “para fora” (a pregação), a glossolalia é uma oração voltada “para dentro” (a alma). Ambos são vistos pela tradição cristã como dons do Espírito Santo, mas com naturezas e propósitos distintos.
Cuidado com a Desinformação
O episódio serve como um alerta sobre como falas do Papa podem ser distorcidas. Muitas vezes, manchetes ou posts em redes sociais tiram as palavras do pontífice de seu contexto original para gerar polêmica.
A recomendação para os fiéis é sempre buscar as fontes oficiais. A homilia do dia 1º de setembro, por exemplo, está disponível na íntegra no site do Vaticano. A leitura do documento original, como vimos, mostra claramente que o Papa não fez qualquer proibição. Em resumo, a notícia é um boato.
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