Leão XIV no Estádio Centenário pediu aos católicos que não meçam a força da Igreja apenas pelo número de fiéis. Na noite de sábado, 7 de novembro, o Papa presidiu uma vigília de oração em Montevidéu e apresentou o testemunho cristão como resposta à secularização e à indiferença religiosa.
Imagem destacada meramente ilustrativa. Foto: Daniel Mironov/Unsplash.
Segundo a Sala de Imprensa da Santa Sé, mais de 70 mil pessoas participaram dentro do estádio e outras 30 mil acompanharam o encontro nas áreas próximas. Antes do discurso, Leão XIV ouviu o testemunho de uma jovem catequista, de um jovem recém-batizado e de uma família católica.
Leão XIV no Estádio Centenário e o desafio da secularização
O ponto de partida do discurso foi uma realidade vivida em diferentes países: a fé já não é transmitida com a mesma naturalidade de outras gerações, e muitas pessoas passam boa parte da vida sem contato habitual com a Igreja ou com a prática religiosa.
O Papa observou que os católicos uruguaios aprenderam a viver e anunciar o Evangelho nesse cenário. Para ele, essa experiência pode ajudar comunidades de outros lugares que começam a perceber o que significa ser minoria. Ao mesmo tempo, agradeceu a famílias, sacerdotes, religiosos, leigos e jovens que mantiveram a presença cristã no país por meio de uma fidelidade muitas vezes discreta.
Para explicar por que uma comunidade pequena não é necessariamente irrelevante, Leão XIV recorreu a Belém. A cidade tinha pouca importância política, mas foi escolhida para o nascimento de Jesus. A imagem permitiu ao Pontífice distinguir pequenez de insignificância: a missão da Igreja não depende somente de presença social ou de números, mas de sua fidelidade a Cristo.
Quando Deus deixa de ter lugar
Ao recordar que não havia lugar para a Sagrada Família na hospedaria, o Papa comparou a cena à indiferença contemporânea. A vida pode ficar tão cheia de compromissos, projetos e distrações que a ausência de Deus deixa de ser percebida.
Leão XIV advertiu ainda que, quando se tenta construir um mundo sem Deus, existe o risco de também deixar o ser humano sem lugar. A afirmação não foi apresentada apenas como crítica à sociedade: o Papa reconheceu que a indiferença também pode entrar gradualmente na vida dos próprios cristãos.
Por isso, recomendou manter Cristo no centro por meio da oração, da Missa, da Confissão e da leitura meditada do Evangelho. A renovação missionária, segundo a mensagem, começa por uma relação pessoal com Jesus, e não apenas por estratégias ou estruturas.
“Não é preciso ser muitos”
Inspirando-se nos Magos, que seguiram uma estrela até Belém, o Papa explicou que a vida dos cristãos pode despertar perguntas em pessoas que talvez nunca abram uma Bíblia ou entrem espontaneamente numa igreja. O testemunho cotidiano deve apontar para Cristo, assim como a estrela não era o destino, mas o sinal que conduzia ao Menino.
Foi nesse contexto que Leão XIV resumiu: para iluminar muito, “não é preciso ser muitos”, mas refletir a luz do Senhor. A orientação desloca a atenção do tamanho da comunidade para a qualidade de sua presença no mundo.
O Papa dirigiu apelos concretos aos jovens e às famílias. Encorajou os jovens a não temer o compromisso definitivo do matrimônio e pediu aos casais abertura à vida. Também convidou quem percebe uma possível vocação sacerdotal ou religiosa a não ignorar o chamado por medo de perder outras possibilidades. Honestidade, perdão, serviço e generosidade foram apresentados como escolhas capazes de tornar visível a liberdade cristã.
A Boa-Nova deve alcançar quem não procura
A segunda imagem bíblica central foi a dos pastores. Diferentemente dos Magos, eles não estavam em viagem nem pareciam procurar uma resposta espiritual; cumpriam o trabalho cotidiano quando receberam o anúncio do nascimento de Jesus.
Leão XIV afirmou que a alegria do Evangelho se destina a todo o povo, inclusive a quem ainda não busca a Deus. Por isso, a Igreja é chamada não apenas a acolher quem se aproxima, mas também a levar a mensagem cristã às pessoas em suas próprias “noites”, marcadas por dúvidas, sofrimento ou distância da fé.
O Pontífice apresentou Jesus como a esperança que permite anunciar o perdão, acompanhar quem se aproxima da morte, oferecer um novo começo a quem caiu e celebrar a presença de Cristo na Eucaristia. Para ele, outras instituições prestam serviços valiosos à sociedade, mas nenhuma substitui o anúncio de que o amor de Deus é mais forte que o pecado, o ódio e a violência.
Chamado à santidade e à Eucaristia
Na parte final, Leão XIV pediu que os participantes voltassem à vida cotidiana transformados pelo encontro com Cristo. Ele rejeitou uma fé reduzida ao costume ou ao mínimo necessário e apresentou a santidade como vida plena, livre e autêntica.
O Papa encerrou ligando Belém à Eucaristia: o nome da cidade significa “casa do pão”, e Cristo continua próximo sob as espécies do pão e do vinho. Assim, recomendou a adoração eucarística e a oração diante do sacrário como caminho para a amizade com Jesus.
A vigília encerrou o segundo dia da visita de Leão XIV ao Uruguai. No mesmo sábado, ele celebrou Missa em Paysandú, visitou a comunidade de Casavalle — onde abençoou 12 novas moradias — e encontrou o mundo da educação na Universidade Católica do Uruguai.
Fontes
O discurso integral de Leão XIV está disponível no site oficial do Vaticano. A Sala de Imprensa da Santa Sé publicou os dados do encontro, e o Vatican News divulgou uma síntese em português.
1 comentário em “Leão XIV no Estádio Centenário: “não é preciso ser muitos””